A filosofia da parole violenta pelo Dick-bom

«Como seria, perguntou-se, conhecer realmente o Tao? É aquilo que primeiro emite a Luz e depois a Escuridão. Que ocasiona a interação das duas forças primárias, de forma que haja sempre renovação. É aquilo que impede que tudo se desgaste. O Universo nunca se extinguirá, porque, precisamente quando a escuridão tiver apagado tudo para se tornar genuinamente transcendente, as novas sementes de luz renascerão nas próprias profundezas É este o Processo. Quando a semente cai, penetra na terra, no solo. E lá em baixo, longe da vista, transforma-se em vida.»

Philip K. Dick, O Homem do Castelo Alto

Homens que odeiam mulheres

 

Por mais anos que passem, continuamos a notar que, independentemente de todos os esforços legislativos e da sociedade civil, na civilização ocidental existe um paradigma que não desaparece. Esse paradigma trágico chama-se heteropatriarcado, e, é sempre importante deixá-lo claro,  manifesta-se essencialmente numa contumaz perspectiva e práxis abusiva dos homens sobre a sociedade.

Como conseguiríamos nós explicar o fenómeno relatado nesta nocia (Homens em classe executiva e mulheres na classe económica. Viagem do Barcelona gera polémica) sem partirmos exactamente dessa perspectiva? Só alguém muito mal intencionado ou de direita, o que para efeitos desta conversa não é diferente, poderia sequer ousar formular outro tipo de explicação. A força desta estrutura de opressão é tal que colhe muitas vezes apoio nas próprias vítimas, como fica patente nas declarações de uma das jogadoras afectadas:

Nós somos umas sortudas. Não é preciso que digam isto cem vezes, todos sabem perfeitamente que o Barça está a apostar nas mulheres, mas é um tópico que continua progressivamente. Não se pode passar de zero a cem e temos sorte, considerando como é o futebol feminino em Espanha”. “Até há pouco tempo costumávamos fazer longas viagens de autocarro, e isso sim é que era complicado”

 

E é aqui que o carácter insidioso deste paradigma se torna mais claro: as jogadoras, e as mulheres em geral, são levadas a acreditar que deviam estar agradecidas por um tratamento manifestamente iníquo. Como também são levadas a acreditar que é normal que joguem em estádios com poucos espectadores, que não tenham as suas camisolas em destaque na loja do clube ou que as suas transmissões televisivas não tenham o merecido destaque.

Infelizmente não é caso único. Recentemente, na questão das “grid girls” na Fórmula 1 também a voz do heteropatriarcado, que se transubstancia numa violência física e psíquica em todos os que não são homens ou lumpenfrauen, se fez sentir quando as mulheres vitimizadas assinaram um documento onde expressavam a sua vontade de continuar naquelas funções. Mas que legitimidade tem isso? Nenhuma, tendo em conta que se tratam de lumpenfrauen. Seria o equivalente a uma declaração similar de um escravo de uma plantação no sul dos EUA no séc. XIX; como poderia quem não conheceu outra coisa ao longo da vida que não a opressão, expressar em liberdade e de forma consciente essa opinião?

Mais recentemente, o tinir do chicote do heteropatriarcado fez-se ouvir nas galerias da assembleia da república quando uma proposta asinina, que pretendia tornar norma a custódia totalmente partilhada de filhos de casais separados, foi levada a discussão. Isto tudo partindo de uma perspectiva heteronormativa, em que se assume por defeito casais entre um homem e uma mulher, o que em pleno séc XXI me parece absolutamente anacrónico, mas esse não era o maior problema… O maior problema, e que foi prontamente identificado pela sociedade civil, é que ao avançar com uma proposta deste género os homens iriam conseguir um subterfúgio para não pagar a pensão de alimentos. O outro grande problema é que as crianças ficariam assim desprotegidas e expostas à violência por virtude de serem forçadas a passar tempo com a figura parental abusiva.

Não tenho, infelizmente, respostas fáceis para estas questões. Em primeira análise, seria necessário agir atempadamente na vertente educativa, deixar desde cedo claro às crianças do sexo masculino os perigos que a sua condição encerra, como elas são, em potência, e é isto que interessa, abusadoras, manipuladoras, violentas e potencialmente violadoras. Caso isso não funcionasse, e é possível que, apesar desse trabalho meritório em termos educativos, não se manifestassem diferenças em tempo útil, não antevejo outra solução que não a apresentada recentemente por uma académica nas redes sociais, que ao legendar uma escultura de Medusa a decapitar Teseu, escreveu:

Sim, todos os homens.